Under the Skin

Há um filme. As imagens, os cenários, as personagens desse filme. As cores, as luzes e sombras que aí comparecem. Depois há um olhar. Um olhar contaminado pelo gosto e pelos critérios de exclusão que este impõe. Segue-se um trabalho de montagem que leva mais longe as exclusões, num processo de modelação que desvia, recorta, acrescenta. As imagens agora expostas, desviadas dos seus contextos anteriores, soterram os achados e encobrem-nos, desnudando algo distinto. Desde logo, as dimensões (7x7), impressas em papel fino japonês de 14x14 cm, depois, a designação, que as circunscreve a um único título, under the skin, e o número: treze, ao todo. São imagens baseadas e extraídas na sua forma original de stills da longa metragem homónima de Jonathan Glazer, fragmentadas, distorcidas e/ou redimensionadas em termos de formato e posteriormente editadas em termos de cor, luminosidade e contraste, de modo a fazer desaparecer a informação menos significativa e a deixar apenas visível, ainda que imperceptível, um novo e distinto imaginário. Um imaginário urbano e saturado, cujas formas parecem decompor-se, evidenciando dinâmicas sobrepostas. Por momentos, podemos mesmo hesitar e pensar que estamos a ser confrontados com a súmula dos reflexos, formas, linhas e cromatismo de dois espelhos paralelos. E com a captura de um instante à primeira vista impossível e desconcertante, que despoleta de imediato uma incessante busca de sentido, a qual convoca, por um lado, as nossas capacidades inquisitivas e associativas e, por outro lado, um vasto leque estético e referencial.
Os corpos enublados e duplicados, as perspectivas obliteradas, as luzes difusas, complexificam o suporte referencial e, partindo quer do título deste novo trabalho de Pedro Maia, quer das possibilidades por ele sugeridas, sou tentado a explorar rastos tão ténues como as diferentes camadas de derme, decapando-as, como se com esse exercício mental alcançasse um para lá matricial capaz de iluminar todas essas zonas onde se processa a protecção, a elasticidade, a pigmentação, a nutrição e oxigenação, a conservação da temperatura, para depois, munido dessa informação, fazer a transposição para as diferentes fases de elaboração das fotografias expostas. No entanto, pese embora a imensidade lírica que poderia obter, creio que me afastaria não só da demanda havida, como deixaria de fora uma multiplicidade de outros constituintes, além de derivar para uma dimensão radicalmente distinta da que o Pedro tomou como ponto de partida, pois estaria a ignorar a sequência de stills do filme de Glazer. Filme, com fotografia de Daniel Landin, que decorre em ambiente sinistro e sombrio, de abundantes tons fortes e escuros, adensado pelas paisagens da Escócia, pelo jogo entre o claro e o escuro, pelos espelhos e pelo nevoeiro. Elementos fundamentais nesta exposição e afins do imaginário deste e de outros trabalhos de Pedro Maia, que sobre eles tem reflectido e escrito.
Há maneiras de pensar cuja longevidade parece indissociável dos passos com que o cérebro se apercebe das coisas, sejam estas concretas ou abstractas. Uma dessas maneiras é a que considera que toda a idealidade deve materializar-se e que toda a materialidade deve idealizar-se, para serem mais reais para nós. Ora junto desses três conceitos (idealidade, materialidade, realidade) se articula, creio, o mais recente trabalho de Pedro Maia, associando-lhe um outro, o da autenticidade, por via da paixão ou do gosto pessoal. Assim, do mesmo modo que os antigos pensavam a apreensão e transposição do natural e do real, hoje parece comummente pacífico que este é uma entidade multímoda e de tal modo abrangente que inclui o próprio trabalho de transfiguração, ficção e apropriação que sobre ele se exerce. Já não é, pois, a originalidade que está em questão, mas a celebração da consciência individual, que procura romper as várias cadeias com que o pensamento a aprisiona. Como? Por exemplo, com recurso à ironia que envolve e sustenta o risco das pesquisas ou demandas pessoais, mormente tendo em conta a sociedade mercantil em que vivemos, pautada por uma sede constante e insaciável de novidades e de corpos, cujo excesso de imagens e ideias parece ter essencialmente em vista o consumo e o consequente desgaste e depauperação da nossa capacidade de percepção e interrogação. Uma ironia, pois, que perturba o sentido e impele para a luz toda essa voracidade ruidosa, questionando-a, despertando inquietações e desassossegos nos receptores ou espectadores, reivindicando o furor da vida e legitimando a especulação, que traz acoplada, no seu lastro, uma poderosa carga negativa e/ou destrutiva. O carácter destrutivo não deixa de ter os seus aliciantes, claro. Esvazia e cria espaço, deixa um lastro de ruínas (e há muito elas configuram um gosto estético) e desperta o culto pela história ou pelas narrativas onde o tempo é a grande personagem. Talvez o trabalho da arte seja esse mesmo, um processo lúdico e irónico de questionar e levar mais longe o nosso modo de olhar, ver e entender. Pelo menos é assim que vejo e sinto Under the skin.

Carlos Bessa