Projections & Premonitions

Nothing is original. Steal from anywhere that resonates with inspiration or fuels your imagination. Devour old films, new films, music, books, paintings, photographs, poems, dreams, random conversations, architecture, bridges, street signs, trees, clouds, bodies of water, light and shadows. Select only things to steal from that speak directly to your soul. If you do this, your work (and theft) will be authentic. Authenticity is invaluable; originality is non-existent. And don’t bother concealing your thievery - celebrate it if you feel like it. In any case, always remember what Jean-Luc Godard said: 'It’s not where you take things from - it’s where you take them to"
Jim Jarmusch

Há entre nós e o mundo uma cadeia de muitos e difusos elos, imperceptíveis e, por isso, tantas vezes invisíveis. Uma cadeia que nos desassossega e que, na dinâmica própria das coisas e dos sentidos, se revela em instantes breves e fulgurantes e nos dá ver parcelas que se revivificam e intensificam interiormente, estabelecendo nexos e conexões que chamaremos aqui e agora molduras. O trabalho dos sentidos é imenso, medonho. E construtor de narrativas saturadas de aproximações e inquietações, feitas de camadas difusas que se sobrepõem e que almejam a luz, a ordem e o sentido. A beleza tem aí a sua morada, onde sonho, experiência e circunstância se aliam e convertem em imagens que resgatam a perda e a passagem do tempo. Imagens que se objectivam e projectam algo afim do sonho, do desejo, da nostalgia.
Reter e emoldurar alguns dos elos dessa cadeia é dar a contemplar a fulguração de um instante, deixando-nos nas mãos o detonador das narrativas a partir das quais o homologamos e nos abrimos à sua sedução. Projectando-nos em premonições que nos são oferecidas por um olhar outro, o do autor, que o quis difuso, desfocado, deixando-nos inteiros com a nossa liberdade construtora.
Desde os clássicos que se reflecte sobre a incessante busca da completude, evidenciando a incompleta e mutilada natureza humana, atravessada por um desejo mendigante, todo ele carência e perda, e por uma vontade ininterrupta e insaciável de domínio sobre o mesmo. Até que, ao longo do século passado, se foi confluindo para a assunção de um desejo outro, aberto, transbordante, construtivo, que se distancia da castração e deixa de o ser para se tornar luz, excesso, prazer. Delleuze e Guattari dizem-no melhor: “O real (…) é o resultado das sínteses passivas do desejo como autoprodução do inconsciente. Ao desejo não falta nada, não lhe falta o seu objecto. É antes o sujeito que falta ao desejo, ou o desejo que não tem sujeito fixo; é sempre a repressão que cria o sujeito fixo.” (in Anti-Édipo, Assírio & Alvim, p.31).
Pedro Maia, com os trabalhos que agora dá a conhecer em Projections & Premonitions, reflecte, quer sobre as dinâmicas do desejo e da luz, quer sobre as próprias construções de sentido, ao manipular imagens, dissolvendo contornos e contrariando assim um dos princípios básicos da fotografia. Fá-lo em diálogo com a obra do alemão Gerhard Richter, levando mais longe algo que já fazia parte das inquietações de Rembrandt, ou seja, não só a liberdade do espectador como também o papel do artista enquanto tal, capaz de apreender o que é para si mais autêntico, devolvendo-nos essa autenticidade na sua dimensão mais genuína, saturada de experiência, contaminada pelo seu eu, plena de maravilhamento.
Os rostos e os corpos que nos são oferecidos numa configuração nublosa são como que vislumbres de um percurso em direção à contemplação e à luz, ao mesmo tempo que se apresentam como fotogramas de algo afim do onírico, cujo cromatismo resiste à definição e nos abeira de uma pulsão de ver para lá, de ver mais adiante e mais fundo, penetrando nos fantasmas de cada um de nós, sem que saibamos bem o quê, pois tal como nos sonhos podemos abrir os olhos antes da revelação.

Carlos Bessa